Mesa em luz baixa de fim de tarde: perfil silhuetado, taça de vinho tinto recebendo luz quente da janela
N.º II — ensaio

O Vinho Contra a Pressa

Rituais, tempo e o prazer de desacelerar.

14 maio · 2026 · leitura de 7 minutos · por Leandro Lima

Sempre que leio os quadrinhos do André Dahmer, sorrio. Sua capacidade criativa parece inesgotável. "Em matéria de quadrinhos, tudo já foi feito", diz ele em uma de suas tiras — para logo em seguida nos arrebatar com algo inteiramente novo. E em matéria de vinho: tudo já foi dito?

É uma pergunta com a qual me debato há algum tempo. Dentro da minha bolha, parece que não há muito mais a acrescentar: as mesmas uvas, os mesmos vinhos, o mesmo Dia da Malbec outra vez. Mas, quando tento olhar para fora desse micromundo, surge outra questão: e do lado de fora? Existe alguém, além de nós, os connaisseurs, genuinamente interessado nas minúcias do vinho? Ou estamos, em grande medida, falando para nós mesmos?

Nos últimos anos, a indústria do vinho abraçou uma lógica simples: o vinho é complexo, exige educação para ser apreciado — e passou a educar. As redes sociais são bombardeadas de informação todos os dias. E o consumo continua caindo. A culpa não é apenas da geração Z, bode expiatório de sempre: millennials e boomers também têm adotado uma postura mais sóbria. Há algo mais estrutural por trás dessa queda.

O vinho, ouso dizer, tem seu próprio modus operandi — e ele vai na contramão do mundo. Primeiro, exige tempo. Não o tempo de envelhecer na garrafa, mas o tempo de quem o bebe: a conversa que se estende, a mesa que ninguém quer abandonar. Em um mundo obcecado por velocidade, isso virou desvantagem.

Segundo, exige curiosidade — e curiosidade pressupõe mistério. Onde está o mistério na vida hiperexplicada de hoje?

Além disso, o vinho pede ritual. Não o ritual mecânico de abrir uma garrafa, mas o do almoço de domingo, do jantar em família, do feriado que merece celebração. O filósofo Byung-Chul Han, em O Desaparecimento dos Rituais, mostra como os rituais funcionam como âncoras temporais — acordes de ressonância comunitária. Sem eles, perdemos as marcações que nos situam no tempo. E os rituais que restam acabam capturados pela lógica dos likes: viram conteúdo. E o conteúdo, no fim, nos isola.

O vinho tem seu próprio modus operandi —
e ele vai na contramão do mundo.

Sou millennial. Cresci em uma casa com jardim. Crianças soltas em jardins aprendem coisas aparentemente inúteis: contar formigas, seguir a trilha das lesmas, observar o tempo passar sem culpa. Manoel de Barros certamente passou muito mais horas assim — e tirou delas maior proveito. O ponto é que desaprendemos a parar. Perdemos o olhar destreinado de criança de que ele falava. Crescemos jantando e conversando à mesa todos os dias; hoje comemos olhando para a série, abrindo o celular por impulso a cada meio minuto — sempre disponíveis, sempre ausentes.

Para mim, o vinho sempre teve algo a mais a perseguir: uma uva diferente, um aroma inesperado, uma infinidade de mundos a conhecer. Ele entrou na minha vida pela sedução; a explicação técnica veio muito depois, quando o interesse já era genuíno e eu quis estudar de verdade.

E é curioso: ao final desse processo, meu interesse por vinhos diminuiu por um tempo. Eu estava saturado — não do vinho em si, mas da informação sobre vinho. O vinho havia perdido parte do seu mistério.

É uma armadilha conhecida. Em um mundo obcecado por performance e retorno, até os prazeres viram objetos de otimização. Outro dia, ouvindo o podcast Philosophize This!, uma pergunta me parou: "Is there anything that you do today that isn't for the return you get?" Existe algo que você faça hoje sem esperar nada em troca? A pergunta ficou me rondando por dias.

Pense na última vez em que chamou amigos sem pauta. Em que começou um hobby apenas pelo prazer de começar — um curso de línguas sem objetivo no LinkedIn, sem produtividade para medir. Quando foi a última vez que tomou uma taça de vinho olhando o jardim enquanto a chuva caía e sentiu o tempo desacelerar?

Talvez o vinho não precise ensinar nada, num primeiro momento. Talvez precise, antes de tudo, devolver às pessoas algo mais raro do que qualquer rótulo ou terroir: a experiência do tempo.

E, acima de tudo, o prazer simples de estar junto.

L.L.

São Paulo · 14 de maio de 2026 Caderno I · N.º II