Mesa de leitura com livro aberto em primeiro plano, caderno de couro com caneta-tinteiro, e taça de vinho em luz quente
N.º I — ensaio

Quando as Palavras Não Bastam para o Vinho

Entre a técnica, a poesia e a experiência de beber.

14 maio · 2026 · leitura de 4 minutos · por Leandro Lima

Vez ou outra, escuto alguém perguntar por que a linguagem do vinho precisa ser tão rebuscada. Eu mesmo me faço essa pergunta com frequência.

Há momentos em que as palavras ajudam; outros, em que atrapalham. E há ainda aqueles em que simplesmente faltam palavras para descrever um grande vinho e transmitir a quem lê ou escuta algo da experiência de beber o sublime.

O vocabulário técnico é necessário em contextos profissionais. Embora estejamos longe de uma linguagem verdadeiramente padronizada, certos descritivos funcionam bem. Falar de um vinho seco, de acidez alta e cortante, intensidade aromática média, álcool baixo e notas de maçã verde, pêssego e jasmim pode sugerir, para um degustador experiente, um Riesling Trocken.

Mas e para o leitor comum? Como traduzir a emoção de beber um grande vinho sem recorrer a um palavreado excessivamente florido?

Talvez apenas a poesia — e, em seus melhores momentos, a grande literatura — tenha ferramentas suficientes para isso.

Tomando emprestados os versos de Manoel de Barros:

O rio que fazia uma volta

atrás da nossa casa

era a imagem de um vidro mole…

Passou um homem e disse:

Essa volta que o rio faz…

se chama enseada…

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro

que fazia uma volta atrás da casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manoel de Barros · O Rio que Fazia uma Volta

O nome empobrece muitos vinhos quando os reduzimos a palavras como "excelente", "belo" ou "sublime". Mas o que existe além disso? O que despertam em nós as camadas de aromas de um Riesling Auslese, sua acidez afiada em equilíbrio com o açúcar residual e sua impressionante intensidade de sabores?

E como traduzir a sensação de perceber um sorriso surgindo involuntariamente no rosto, olhar ao redor para ver se alguém mais está sentindo o mesmo e pensar: "Que coisa é essa?"

Bebamos, então, das palavras de Marcel Proust — provavelmente o mais citado entre os menos lidos —, de suas madalenas, de seu chá de tília e da torrente de memórias que o transporta para outro tempo:

Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, aos inofensivos desastres, ilusória sua brevidade, tal como faz o amor, enchendo-me de sua preciosa essência; ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.

Marcel Proust · Em Busca do Tempo Perdido — No Caminho de Swann

É justamente esse poder de nos transportar para outro tempo — ou para dentro de nós mesmos — que alguns grandes vinhos possuem. Se você já bebeu um grande Tokaji ou um grande Sauternes, provavelmente sabe do que estou falando.

As palavras não são boas ou más por si só. O segredo está em lembrar que alguns vinhos — e não todos — merecem um vocabulário mais evocativo.

L.L.

São Paulo · 14 de maio de 2026 Caderno I · N.º I